El Niño pode deixar ciclo da água mais imprevisível, alerta relatório

Fenômeno climático pode ampliar o risco de secas e enchentes, enquanto reservas de água doce e geleiras continuam em queda

O ciclo da água no planeta está se tornando mais irregular e difícil de prever, segundo dados apresentados pela Organização Meteorológica Mundial (OMM). O cenário preocupa porque ocorre ao mesmo tempo em que as reservas de água doce vêm diminuindo e o fenômeno El Niño ganha força.

De acordo com o relatório sobre o estado dos recursos hídricos mundiais, 2025 esteve entre os anos mais secos das últimas três décadas em relação à vazão dos rios. A OMM também identificou uma tendência de longo prazo de redução das reservas de água continental, incluindo águas subterrâneas, geleiras, lagos, neve e umidade do solo.

El Niño aumenta os riscos

O fenômeno El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial e pode modificar os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do mundo.

A OMM alerta que o fortalecimento do fenômeno pode aumentar o risco de seca em algumas áreas e de chuvas intensas e enchentes em outras. Em atualização divulgada em setembro, a organização informou que o El Niño estava se fortalecendo e apresentava probabilidade próxima de 100% de persistir entre setembro e novembro de 2026 e também durante o período de dezembro de 2026 a fevereiro de 2027.

Nos Estados Unidos, o Centro de Previsão Climática também apontou, em 10 de setembro, que o fenômeno estava ganhando intensidade e havia mais de 90% de chance de atingir a categoria de evento muito forte durante o outono e inverno do Hemisfério Norte.

Reservas naturais estão diminuindo

Um dos principais pontos de preocupação é a redução das reservas naturais que ajudam a manter o abastecimento de água durante períodos de estiagem.

Segundo a OMM, todas as principais regiões glaciais do planeta perderam massa pelo quarto ano consecutivo em 2025. Entre 2023 e 2025, a perda acumulada de massa das geleiras chegou a aproximadamente 1.400 gigatoneladas de água.

As águas subterrâneas também apresentam sinais de alteração. Quase dois terços dos poços monitorados em diferentes partes do mundo registraram, em 2025, condições diferentes das médias históricas.

Essas reservas funcionam como uma espécie de proteção natural durante períodos de pouca chuva. Com sua redução, regiões que enfrentarem secas prolongadas podem ter menos capacidade de compensar a falta de precipitação.

Situação também preocupa o Brasil

Os efeitos do El Niño não são iguais em todas as regiões. No Brasil, as consequências podem variar de acordo com a área do país e a intensidade do fenômeno.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) já havia alertado, em junho, para a possibilidade de o El Niño persistir até o fim de 2026.

A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) também preparou um plano específico para enfrentar possíveis impactos do fenômeno sobre os recursos hídricos brasileiros durante o ciclo 2026–2027. O documento prevê ações de monitoramento, preparação e medidas para reduzir riscos aos principais sistemas de abastecimento e recursos hídricos do país.

Mais extremos, menos previsibilidade

O relatório da OMM mostra que o problema não está apenas na quantidade de chuva, mas também na forma como ela ocorre. Em algumas regiões, grandes volumes podem ser registrados em períodos muito curtos, enquanto outras enfrentam longas fases de estiagem.

Essa alternância dificulta o gerenciamento dos recursos hídricos e aumenta a necessidade de sistemas de monitoramento, armazenamento de água e alertas antecipados.

A organização também destaca que a água não respeita fronteiras nacionais. Alterações no regime de chuvas, nos rios e nas reservas naturais podem afetar diferentes países dentro de uma mesma bacia hidrográfica.

Para especialistas e autoridades, o cenário reforça a necessidade de ampliar o monitoramento dos recursos hídricos e preparar governos e comunidades para períodos de seca, enchentes e temperaturas extremas.

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