Reino Unido enfrenta nova pressão separatista com união inédita de Escócia, Gales e Irlanda do Norte

Líderes nacionalistas assinaram acordo em Cardiff e defendem que cada nação tenha o direito de decidir seu próprio futuro político

O futuro do Reino Unido voltou ao centro do debate político nesta segunda-feira (14), após líderes nacionalistas da Escócia, do País de Gales e da Irlanda do Norte se reunirem em Cardiff para defender o direito à autodeterminação e pressionar Londres por mudanças constitucionais.

O encontro marcou uma aproximação inédita entre os movimentos independentistas das três nações que, juntamente com a Inglaterra, formam o Reino Unido. Os líderes assinaram um memorando no qual afirmam que nenhuma autoridade sediada em Westminster deveria impedir que as populações decidam o próprio futuro.

A iniciativa reúne John Swinney, do Partido Nacional Escocês (SNP); Rhun ap Iorwerth, do Plaid Cymru, do País de Gales; e Michelle O’Neill, do Sinn Féin, da Irlanda do Norte. A presidente do Sinn Féin na República da Irlanda, Mary Lou McDonald, também participou das discussões.

Pressão por referendos cresce

Embora os três movimentos defendam maior autonomia e autodeterminação, os planos não são idênticos.

Na Escócia, Swinney voltou a defender a realização de um novo referendo sobre a independência. A região já realizou uma consulta em 2014, quando 55% dos eleitores optaram pela permanência no Reino Unido, contra 45% favoráveis à separação.

Na Irlanda do Norte, Michelle O’Neill também defendeu uma consulta popular sobre o futuro constitucional do território e a possibilidade de reunificação com a República da Irlanda. O tema está relacionado ao Acordo da Sexta-Feira Santa, de 1998, que estabelece mecanismos para uma eventual votação sobre a união da Irlanda quando houver condições políticas e apoio popular suficientes.

Já no País de Gales, o discurso é mais cauteloso. Rhun ap Iorwerth não estabeleceu uma data para um eventual referendo, embora defenda que os galeses tenham o direito de decidir seu futuro.

Três governos nacionalistas pela primeira vez

O encontro ganhou peso justamente porque, pela primeira vez desde o processo de descentralização política iniciado no fim dos anos 1990, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte são governados por forças políticas que defendem a autodeterminação ou a independência.

Os líderes também pretendem ampliar a cooperação entre as três nações em áreas como economia, energia e relações com a Europa.

O memorando ainda faz referência ao impacto do Brexit, defendendo uma aproximação maior com a União Europeia. Os signatários avaliam que a saída do bloco europeu prejudicou suas economias e reduziu oportunidades para suas populações.

Londres rejeita ideia de dissolução

Apesar da pressão dos movimentos nacionalistas, o governo britânico não sinalizou disposição para avançar imediatamente com novos referendos.

O primeiro-ministro Andy Burnham afirmou que sua prioridade é enfrentar problemas econômicos e sociais do país, evitando transformar o debate constitucional no principal foco do governo.

A posição de Londres representa um obstáculo importante para os separatistas, já que mudanças dessa magnitude dependem de negociações com o governo central.

Na Escócia, por exemplo, a realização de uma nova consulta continua sendo rejeitada pelo governo britânico, apesar de Burnham ter admitido recentemente que um eventual referendo poderia ser discutido caso houvesse uma demonstração clara de apoio popular.

Movimento pode mudar o mapa político europeu

Caso os movimentos separatistas consigam avançar e obtenham apoio popular em consultas futuras, o impacto ultrapassaria as fronteiras britânicas.

Uma eventual independência da Escócia, do País de Gales ou uma reunificação da Irlanda do Norte com a República da Irlanda modificaria profundamente o atual mapa político das Ilhas Britânicas.

A discussão também ganhou força após declarações recentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, favoráveis à reunificação da Irlanda. A manifestação acrescentou repercussão internacional a um debate que já vinha crescendo dentro do Reino Unido.

Por enquanto, não existe um calendário definido para que os três territórios realizem referendos simultaneamente, e o próprio acordo reconhece que cada nação poderá seguir seu próprio caminho e ritmo.

O que mudou, porém, é a articulação política: pela primeira vez, os principais movimentos nacionalistas das três nações decidiram atuar de forma coordenada para pressionar Londres por maior autonomia e pelo direito de decidir sobre seus próprios futuros.

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